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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Suzuka

A falta de um local adequado para testar os carros fez surgir um dos circuitos preferidos dos pilotos. 

Pergunte para qualquer piloto de F1 quais circuitos seriam seus favoritos e você irá ouvir Suzuka sendo mencionado diversas vezes. A história do circuito começou nos anos 1960, com Soichiro Honda, fundador da montadora que leva seu nome. A Honda já participava de campeonatos na década de 1950, tanto dentro do Japão quanto internacionalmente.

Soichiro Honda, fundador da montadora que leva seu nome e idealizador do circuito de Suzuka. Foto: reprodução

Na época, montadoras europeias usavam as corridas e circuitos para testar e promover seus carros e Soichiro Honda quis trazer a ideia para o Japão. O empresário, no entanto, esbarrou em um problema: o Japão não tinha muitas estradas pavimentadas que pudessem ser usadas e muito menos circuitos de corrida permanentes que pudessem abrigar os testes. A solução encontrada foi construir seu próprio circuito. 

A construção começou em 1960, mas o primeiro traçado desenhado para o circuito, apesar de rápido, ainda não era o ideal. Foi então que, em 1961, o holandês John Hugenholtz, que desenhou o circuito de Zandvoort, recebeu um telegrama do Sr. Honda pedindo para que ele fosse a Tóquio desenhar Suzuka. 

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O primeiro desenho para o traçado seria em zigue-zague, com a pista se cruzando três vezes. Depois de visitar o local de construção, Hugenholtz se deparou com um local rodeado de plantações de arroz, o que dificultaria a construção da pista, já que  Honda proibiu que as plantações fossem destruídas. A solução foi usar a parte montanhosa da região para a construção do circuito. Por conta disso, o projeto teve que ser alterado, com os três cruzamentos virando apenas um, o icônico traçado em forma de 8. O local da construção acabou dando ao circuito diversos graus de elevação, diferente do projeto inicial que seria plano. O projeto também dividia a pista em duas, chamadas de Suzuka Leste e Suzuka Oeste, que podiam ser usadas de maneira independente. 

Evolução do design do circuito, antes de chegar no projeto final. Foto: reprodução

A inauguração oficial do circuito aconteceu no dia 20 de setembro de 1962 e em novembro, aconteceu a primeira edição da Japan National Road Racing Championship. No dia 3 de maio de 1963, os carros foram à pista para o 1º Grande Prêmio do Japão, vencido por Peter Warr, numa Lotus 23B. A corrida japonesa aconteceu até 1969, antes de voltar já na era da F1. 

O público assiste a primeira corrida de motos realizada em Suzuka, dois meses após o circuito ser inaugurado. Foto: reprodução
Primeiro GP do Japão, em 1963, vencido por Peter Warr. Corrida foi disputada seis vezes entre 1963 e 1969. Foto: reprodução

Outros projetos incorporados ao circuito foram um parque de diversões e um hotel resort, inaugurados em 1963. A roda gigante do parque serve de cenário para os carros na pista.

O circuito de Suzuka faz parte de um complexo chamado Motopia, que conta um hotel resort e um parque de diversões, que aparece ao fundo do circuito. Foto: reprodução

As motos também passaram a correr no circuito e o piloto alemão Ernst Degner, que corria pela equipe Suzuki, acabou sofrendo um sério acidente na curva antes de chegar na ponte, durante uma corrida em 1963. Sofrendo queimaduras graves, o piloto acabou se recuperando das lesões e a curva recebeu seu nome, como forma de agradecer que as consequências do acidente não foram tão graves. 

Ernst Degner é socorrido após acidente em Suzuka. Em agradecimento pelo acidente não ter tido consequências mais graves, a curva foi batizada com o nome do piloto alemão. Foto: reprodução

Além de abrigar corridas, Suzuka se tornou a principal área de teste da Honda, tanto para seus carros quanto para suas motos – que participavam da corrida de endurance 8 horas de Suzuka, evento que começou a ser disputado em 1978 e foi importante para todas as montadoras japonesas. Nas quatro rodas, a F2 se tornou a principal categoria a usar o circuito. Durante esse período, a única mudança feita foi a instalação de um muro separando o pit lane da pista. 

Traçado usado em Suzuka desde sua inauguração até 1983, tinha 6,004 km de extensão. Foto: reprodução

Com o sucesso da Honda nas corridas, aliado com uma breve passagem da F1 pelo Japão, quando correu no circuito de Fuji entre 1976 e 1977, o fundador da montadora viu que era a oportunidade de transformar o circuito em um local de destaque no automobilismo mundial. O plano deu certo e depois de reinscrever o circuito na FIM em 1982, Suzuka passou a fazer parte do calendário da motovelocidade. 

Para se adaptar e tornar o circuito mais seguro, não só para as motos, mas também para os carros, o circuito passou por reformas em 1983, com uma chicane sendo instalada antes da última curva, que por não ter área de escape, era um perigo para os competidores. 

Traçado usado em 1983, com uma chicane sendo instalada antes da última curva, o que elevou a extensão do pista para 6,033 km. Foto: reprodução

Nos locais onde havia espaço, as áreas de escapes foram aumentadas e onde não havia, foram instaladas barreiras de proteção. Nos anos seguintes, mais mudanças na pista, com o realinhamento das curvas 1 e Spoon , para criar uma área de escape maior. 

Todas essas alterações para tornar o circuito mais seguro deram certo e em 1987, Suzuka foi incluído no calendário da F1. Para receber a categoria, o circuito passou por novas reformas, desta vez na estrutura, com boxes, centro médico, heliporto e torre de controle sendo modernizados. A única alteração no traçado ficou por conta da curva Degner, que tinha um formato mais curvo e passou a ser duas curvas ligadas por uma reta. Além disso, um novo conjunto de boxes foi instalado na reta entre a curva Spoon e 130R, para que o traçado West pudesse ser utilizado de forma independente. 

Planta com as mudanças programadas para 1987, que alterava o formato da curva Degner. O traçado passou a ter 5,859 km de extensão. Foto: reprodução

A paixão dos japoneses pela F1 é mundialmente famosa e para a primeira corrida em Suzuka, que aconteceu no dia 1º de novembro de 1987 e teve vitória de Gerhard Berger, a procura por ingressos foi tão grande, que eles tiveram que ser sorteados pela loteria. 

Berger comemora vitória em 1987, na primeira corrida de F1 disputada em Suzuka. Foto: reprodução

Geralmente sendo a penúltima corrida da temporada, o circuito já viu muitas decisões de título, com 11 pilotos – Nelson Piquet (1987), Ayrton Senna (1988, 1990, 1991), Alain Prost (1989), Damon Hill (1994), Mika Hakkinen (1998, 1999), Michael Schumacher (2000, 2003) e Sebastian Vettel (2011) – comemorando a conquista do título em terra japonesas. A pista também ficou marcada pela disputa entre Senna e Prost, nas temporadas de 1989 e 1990, quando os dois pilotos, que disputavam o título, se enroscaram durante a prova. 

Senna e Prost se tocam durante o GP do Japão de 1989. O brasileiro seguiu na prova, mas foi desclassificado após a corrida, dando o título a Prost. Foto: reprodução
Nova batida entre Senna e Prost em mais uma disputa pelo título, dessa vez em 1990. Com os dois pilotos fora da corrida, o campeonato ficou nas mãos de Senna. Foto: reprodução
Veja o acidente de Prost e Senna em 1990 na primeira curva!

Mas nem todas as mudanças no traçado agradaram. Em 1991, a chicane Casio foi mudada de lugar, ficando mais próximo da última curva, com a entrada do pit lane ficando logo antes da nova chicane. A mudança se mostrou uma tortura para os pilotos, que tinham que contornar toda a chicane por dentro, respeitando a velocidade permitida para a área. Depois de 10 anos, a entrada nos boxes voltou a ser no meio da última curva. 

As reformas não pararam por aí. Em 2001, o circuito passou a se modernizar, visando garantir seu futuro na F1, já que o circuito de Fuji passou a sondar a categoria para voltar a receber as corridas. A primeira parte da reforma alterou ligeiramente a forma das curvas S e Dunlop. Em 2003, a curva 130R também foi alterada, para aumentar a área de escape, quando no ano anterior, o piloto Allan McNish sofreu um acidente nessa curva durante a classificação para a corrida. 

Traçado de 5,807 km usado atualmente, com apenas pequenas alterações sofridas durante os anos, para garantir mais áreas de escape. Foto: reprodução

Pierre Gasly fez uma volta guiada pelo circuito de Suzuka, confira aqui

Com o tempo, Suzuka passou a ser ameaçado por outros circuitos. A motovelocidade já não corria mais no circuito, desde a morte de Daijiro Kato, durante a corrida de 2003. A Toyota, dona do circuito de Fuji, entrou na disputa e conseguiu levar a F1 para seu circuito, que passou por uma grande reforma para receber a categoria. Mas uma crise econômica atrapalhou os planos da Toyota, que tentou renegociar com Bernie Ecclestone um novo acordo, no qual alternaria com Suzuka a realização do GP do Japão. Já se preparando para esse acordo, a Honda construiu novos boxes e área de paddock e expandiu a arquibancada principal. No final, mesmo o novo acordo ainda era mais do que a Toyota poderia arcar e Suzuka conseguiu um novo acordo para se manter como única anfitriã da etapa japonesa. 

O circuito de Suzuka, com suas curvas de alta velocidade, ainda é um desafio para os pilotos. Dezenove pilotos já faleceram na pista, sendo 17 japoneses. Os dois estrangeiros foram Elmo Langley, que foi piloto da Nascar e que dirigia o pace car para a categoria e sofreu um infarto durante os testes para uma exibição. A outra morte foi a do piloto francês Jules Bianchi, em 2014, após atingir uma grua que resgatava o carro de Adrian Sutil da área de escape. O piloto ficou nove meses em coma antes de falecer e seu acidente fez com que a regra para a entrada de veículos de resgate durante a corrida fosse mudada, além de acelerar a introdução do Halo nos carros de F1. No momento do acidente, chovia forte no circuito, já que a corrida é realizada na temporada de tufões. Três classificações, em 2004, 2010 e 2019, tiveram que ser realizadas no dia da corrida por conta do mau tempo.

Médicos fazem o primeiro atendimento a Jules Bianchi, depois do acidente na corrida de 2014. O piloto francês ficou em coma até falecer no ano seguinte. Foto: reprodução

Entre os vencedores, Michael Schumacher ainda tem o recorde de mais vitórias, com 6, sendo que a de 2000 selou o primeiro título do alemão com a Ferrari e quebrou um jejum de 21 anos sem título no Mundial de pilotos da escuderia italiana. Outros dois campeões que ainda estão na ativa, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel, vem logo em seguida, com 4 vitórias cada. Em números de pódios, Schumacher também lidera a tabela, com 9, seguido de Vettel com 8 e Hamilton com 6 pódios. 

Entre os brasileiros, Ayrton Senna é o maior vencedor, subindo no degrau mais alto do pódio em duas ocasiões, enquanto que Nelson Piquet e Rubens Barrichello tem uma vitória. Já Felipe Massa nunca venceu na pista japonesa, mas tem dois pódios no circuito. 

Ayrton Senna é o brasileiro com mais vitórias em Suzuka, vencendo as corridas de 1988 e 1993. Foto: reprodução

Entre os 12 pilotos japoneses que já disputaram uma corrida de F1 em Suzuka, Aguri Suzuki foi o primeiro a conseguir um pódio em casa, quando chegou em 3º durante a corrida de 1990. Kamui Kobayashi repetiu o feito no GP do Japão de 2012.

Aguri Suzuki, no pódio com os brasileiros Nelson Piquet e Roberto Pupo Moreno. Suzuki se tornou o primeiro piloto japonês a conseguir um pódio em casa. Foto: reprodução

Além da F1, o circuito também recebe etapas da World Touring Car, da Super GT e da Super Formula japonesa, que por ser muito competitiva, tem sido usada como alternativa para muitos pilotos saindo das categorias de base europeias, em busca de se manter na ativa até que uma sonhada vaga na F1 apareça. O último promovido da Super Formula para a F1 foi Pierre Gasly, que disputou a temporada de 2017 e perdeu o campeonato por meio ponto, já que a última etapa, que seria realizada justamente no circuito de Suzuka, foi cancelada por conta de um tufão. 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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