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Série Circuitos da F1: Mont-Tremblant

Uma região que já era muito aproveitada no inverno, mas ganhou um circuito para também ser aproveitado durante o verão

Ficha técnica

Nome do circuito: Circuit Mont-Tremblant
Comprimento da pista: 4,265 km
Número de voltas: 90
Distância total: 383,850 km
Recorde da pista: 1:32.200, Clay Regazzoni (1970)
Primeira corrida na F1: 1968

A história do circuito começou a ser desenhada em 1937. O explorador Joe Ryan, nativo da Filadélfia, nos Estados Unidos, foi apresentado à região de Mont-Tremblant, que fica a cerca de 130 km de Montreal, no Canadá, por Lowell Thomas, um famoso jornalista. Ao subir no topo do Mont-Tremblant junto com Lowell e Thomas Wheeler, viu que a vista era maravilhosa, mas o acesso ao topo era difícil. Com a ideia de como facilitar esse acesso e ainda vislumbrando transformar o lugar em uma estação de esqui, Ryan tentou comprar a montanha do governo de Quebec, sem sucesso.

Joe Ryan com sua esposa Mary, que administrou o resort após a morte do marido, em 1950. – Foto: reprodução

Ele então pediu ajuda ao padre da cidade, que fez um abaixo-assinado com os moradores da região. Novamente a proposta foi negada e Ryan apelou para um amigo influente, que ligou para o Governador de Quebec e conseguiu que o projeto de transformar a região em um resort de esqui fosse aprovada, já que traria dinheiro e empregos para a região, que era considerada pobre na época. O problema estava nas condições do negócio. Ryan teria apenas dois anos para tirar o projeto do papel, caso contrário, ele seria cancelado. 

Um ano depois, um hotel foi construído na área, além de um elevador para levar os esquiadores até o topo, construído em 1941. Lowell Thomas, que além de jornalista, também era esquiador, começou a fazer suas transmissões direto do resort, atraindo ainda mais turistas e celebridades.

O Mont-Tremblant Lodge foi construído com parte do plano de desenvolvimento da região. – Foto: reprodução
Para facilitar a chegada dos esquiadores ao topo da montanha, um elevador foi inaugurado em 1941. – Foto: reprodução

A infraestrutura do local continuou crescendo a cada dia e tudo andava bem para a região, que viu o número de visitantes aumentar com o novo resort. Só havia um problema: o atrativo da região estava no inverno e com a chegada do verão, a neve e os turistas iam embora. Aí entra Leo Samson na história. Dono de um hotel na área e apaixonado por automobilismo, Samson via o circuito de Mosport na região de Ontario e sonhava em construir um circuito para a região de Quebec também. Depois de anos comprando terras e reunindo apoio, seu sonho saiu do papel. Com o circuito, a região teria atividades durante o ano inteiro.

Leo Samson e sua esposa, em 1950. Apaixonado por automobilismo, Samson não queria ver as corridas apenas na região rival de Ontario, construindo assim o circuito de Mont-Tremblant. – Foto: reprodução

O circuito de Mont-Tremblant foi dedicado à memória de Peter Ryan, filho de Joe Ryan, que após sofrer uma lesão esquiando, se voltou para o automobilismo. Depois de ganhar o primeiro GP do Canadá, no circuito de Mosport, e se tornar o primeiro piloto canadense a competir na F1, ao chegar em 9º na etapa dos Estados Unidos em 1961, Peter faleceu no ano seguinte, em Reims, durante uma corrida de Formula Junior.

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Peter Ryan, filho do fundador da estação de esqui de Mont-Tremblant, faleceu em um acidente em 1962 e teve o circuito dedicado à sua memória. – Foto: reprodução

A pista foi inaugurada em agosto de 1964, com um traçado de 2,510 km, que era considerado um desafio para os pilotos, com curvas de alta velocidade ou de 90º e muitas elevações. 

No ano seguinte, o circuito estreou um novo traçado estendido, dessa vez com 4,265 km, com o novo trecho trazendo curvas rápidas e uma longa reta que levava para a linha de chegada, com o traçado anterior também sendo mantido. O problema do novo traçado era justamente essa longa reta. Com uma enorme elevação, apelidada de “The Hump” (a corcunda), não era difícil perder o controle no final da subida e dar de encontro com uma linha de árvores esperando. A pista também era conhecida por suas ondulações, que ficavam mais evidentes depois do inverno, quando a neve derretia e danificava o asfalto.

Traçado estendido, que foi usado nas duas corridas de F1. – Foto: reprodução

Em 1966, o circuito teve a honra de receber a corrida inaugural da Can-Am. A corrida foi vencida por John Surtees, com a Lola. A famosa “corcunda” acabou fazendo sua primeira vítima, com a Lola de Hugh Dibley voando naquele trecho, passando por cima de uma grade e caindo na área de espectadores. Por sorte, nem o piloto nem o público se feriram no acidente.

Pilotos se alinham no grid para a prova da Can-Am em 1966. – Foto: reprodução

Mesmo com esses problemas, o circuito começou a atrair mais eventos, como uma rodada dupla da IndyCar em 1967 e 1968, com as quatro corridas sendo vencidas por Mario Andretti.

Em 1968, finalmente a F1 desembarcou no circuito e no dia 22 de setembro, a McLaren fez a dobradinha com Denny Hulme saindo vencedor e o fundador da equipe, Bruce McLaren terminando em 2º. 

Denny Hulme e Bruce McLaren fizeram a dobradinha da equipe inglesa em Mont-Tremblant. – Foto: reprodução

O problema das ondulações perseguiram também a F1, com muitos carros abandonando depois de não suportarem as diferenças no asfalto. No ano seguinte, a corrida foi realizada em Mosport, voltando para a região de Quebec em 1970, tendo Jacky Ickx como vencedor.

Jacky Ickx durante o GP do Canadá de 1970. – Foto: reprodução

A pista estreita e ondulada, aliada com a localização mais remota do circuito influenciaram na decisão da F1 de se manter apenas em Mosport, deixando Mont-Tremblant com as competições da Can-Am como único evento internacional. Mesmo a Can-Am não ficou muito tempo na pista, deixando o circuito em 1971 e voltando apenas em 1977 e 1978. Os perigos da pista continuavam os mesmos, como pode atestar o piloto Brian Redman, que sofreu um acidente na “Corcunda” e ficou nove meses se recuperando das lesões sofridas. Depois disso, a Can-Am deixou de competir no circuito de vez, com a pista recebendo apenas competições locais. 

O tempo foi passando e o circuito permaneceu o mesmo, sem nenhuma atualização sendo feita, o que deixou a pista bem abaixo dos padrões exigidos. Depois de ter vários donos, o circuito foi comprado em 2000 por Lawrence Stroll. O empresário não perdeu tempo e colocou Alan Wilson para cuidar da modernização do circuito para os padrões da FIA, mas ainda tentando manter a essência do circuito original, com os prédios sendo renovados, mas mantendo a fachada como eram por fora. 

Durante a reforma, tomou-se o cuidado de manter o visual da época da inauguração, apesar das melhorias feitas. – Foto: reprodução

Na pista, foram colocadas áreas de escape e barreiras de proteção, com a pista também sendo alargada. A famosa “corcunda” também foi modificada, ficando um pouco mais plana e a curva 1 ganhou a opção de uma chicane, para frear as categorias mais rápidas. A parte que foi estendida em 1965 também ganhou uma área de boxes, podendo também ser usada separadamente. Assim o circuito ficou com 3 opções, duas pistas curtas (norte e sul) e um traçado completo, que pode ser usado com ou sem a chicane. 

Vista aérea do circuito. – Foto: reprodução
Com a reforma e a construção de uma área de boxes no South Loop, o circuito passou a ter três opções de traçado. – Foto: reprodução

Depois de dois anos de reforma, o circuito foi reaberto em 2002, com muitas corridas de carros históricos acontecendo. A Grand Am Series também competiu no circuito entre 2002 e 2005, com a Champ Car também realizando corridas na pista. Em 2021, o circuito foi colocado à venda por Lawrence Stroll, incluindo a escola de pilotagem Jim Russell, que tem sua sede no circuito e por onde passaram os três membros da família Villeneuve. A pista vem enfrentando queixas constantes dos moradores da região incomodados com o barulho. Em 1987, o circuito declarou que ia fechar as portas e por isso a área passou por uma mudança de zoneamento, o que permitiu a construções de residências nas proximidades. O problema é que a pista continuou funcionando, agora com vizinhos, que há mais de vinte anos, brigam na justiça para que o circuito respeite os limites de ruído. Em 2020, um juiz deu a decisão favorável aos moradores, com o circuito tendo que limitar suas atividades e níveis de ruído, além de pagar indenização a todos os moradores. Um mês depois de colocar o circuito à venda, Lawrence Stroll desistiu do negócio e tirou a pista do mercado. 

O circuito só recebeu duas corridas de F1 em sua história. Em 1968, Denny Hulme foi o vencedor, com Bruce McLaren e Pedro Rodriguez completando o pódio. Em 1970, Jacky Ickx, Clay Regazzoni e Chris Amon foram os três primeiros. 

Jackie Ickx foi o vencedor da segunda e última corrida de F1 no circuito. – Foto: reprodução

Entre os pilotos da casa, Bill Brack competiu em 68, mas não completou a corrida. Já George Eaton chegou em 10º na corrida de 1970. 

George Eaton participou da corrida de 1970 e conseguiu o 10º lugar. – Foto: reprodução

Entre os brasileiros, apesar de Emerson Fittipaldi ter participado de algumas corridas na temporada de 1970, o piloto brasileiro não correu a etapa canadense naquele ano.

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Magny-Cours

 Dijon

Rouen

Reims

Paul Ricard

Reims

Indianápolis

Baku

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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