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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Mônaco

O glamour e a tradição fazem de Mônaco a corrida preferida dos pilotos

Ficha técnica

Nome do circuito: Circuito de Mônaco

Comprimento da pista: 3,340 km

Número de voltas: 78

Distância total: 260,52 km

Recorde da pista: 1:14.260, Max Verstappen (2018)

Primeira corrida na F1: 1950

Quando se fala em glamour na F1, se pensa logo em Mônaco. O pequeno principado, que fica incrustado no litoral sul francês, perto da cidade de Nice, recebe a F1 com seu público assistindo corridas de seus iates ou das sacadas dos luxuosos apartamentos que ficam localizados no traçado de rua de Monte Carlo. A corrida não é somente luxuosa, mas também tradicional, fazendo parte, junto com as 500 Milhas de Indianápolis e as 24 Horas de Le Mans, da Tríplice Coroa, sonho de consumo de qualquer piloto.

A história do circuito de Mônaco começou com Alexandre Noghès, um aficionado por corridas que atuava como presidente de um clube de ciclismo no principado e que queria incluir as competições de carros nas atividades do clube. Em 1911, ele organizou o 1º Rallye Automobile Monaco, que passou por vários países e teve a vitória de seu filho Antony. A Primeira Guerra Mundial pausou todas as competições, mas assim que a Guerra acabou, Noghès conseguiu convencer os membros do clube a trocar o nome para Automobile Club de Monaco (ACM), abrangendo assim as competições automobilísticas.

O próximo passo era fazer parte da Association Internationale des Automobile Clubs Reconnus (AIACR), hoje conhecida como FIA e que na época era quem supervisionava o cenário automobilístico e organizava as competições ao redor do mundo. O ACM teve sua inscrição negada, já que não tinha realizado nenhum evento no principado.

Se esse era o problema, deixaria de ser pelas mãos de Antony Noghès.

Antony Noghès, que foi o responsável por criar o projeto do circuito de Mônaco – Foto: reprodução

Como Comissário Geral do ACM, Antony montou o projeto do circuito contando com a ajuda esportiva do piloto Louis Chiron e com Jacques Taffe cuidando do lado técnico. A ideia foi bem recebida e Noghès conseguiu a aprovação do projeto e o dinheiro para realizar a corrida. E as boas notícias não pararam por aí. O ACM conseguiu ser aceito no AIACR em 1928, depois da divulgação da realização da corrida.

Mapa do traçado de Mônaco, na época de sua inauguração. O traçado sofreu apenas pequenas mudanças durante os anos – Foto: reprodução

E foi assim que, em 14 de abril de 1929, Mônaco recebeu sua primeira corrida. Foram 100 voltas nas quase quatro horas de duração da prova, que foi vencida pelo inglês William Grover Williams, numa Bugatti 35B. Louis Chiron, que aprovou o traçado do circuito e era uma estrela local, não participou da prova por estar disputando as 500 milhas de Indianápolis.

W. Williams superou os favoritos da época, como Rudolf Caracciola e venceu a primeira corrida disputada em Mônaco, em 1929. As linhas de bonde foram retiradas do traçado em 1932 – Foto: reprodução

A corrida continuou a ser disputada todos os anos, com Louis Chiron vencendo a prova em casa em 1931.

O monegasco Louis Chiron, que ajudou com o projeto do circuito, venceu a corrida em casa em 1931 – Foto: reprodução

Em 1932, Mônaco passou a ser a etapa de abertura da temporada europeia de Grandes Prêmios, com o traçado passando pela primeira mudança, com as pistas do bonde sendo retiradas, dando lugar a uma superfície mais plana. As corridas eram um sucesso de público, com mais de 100 mil espectadores comparecendo cada vez que os carros iam para a pista. Mas assim como aconteceu no resto da Europa, a Segunda Guerra Mundial fez com que as corridas fossem suspensas em 1939.

Durante essa pausa, Alexandre Noghès saiu da presidência do ACM, com Antony assumindo seu lugar. Acabada a guerra, foi Antony o responsável por reativar as corridas em 1948, inclusive com uma corrida de motos. A corrida não aconteceu em 1949, por conta da morte do Príncipe Louis II, voltando no dia 21 de maio de 1950. Nesse dia, Mônaco recebeu a segunda etapa do campeonato de F1, depois da categoria fazer sua corrida de estreia em Silverstone, na Inglaterra.

Traçado de Mônaco em 1950 – Foto: reprodução

A corrida foi vencida por Juan Manuel Fangio, que completou as 100 voltas da corrida em 3h13m18s7. Alberto Ascari chegou em segundo e o monegasco Chiron completou o pódio.

Juan Manuel Fangio foi o vencedor do 1º GP de Mônaco de F1 – Foto: reprodução

A prova ficou marcada por um engavetamento logo na primeira volta, que começou com a Alfa Romeo de Farina batendo no muro e bloqueando a passagem, com nove carros se envolvendo no acidente.

Depois de Farina bater no muro, os pilotos não conseguiram desviar e nove deles se envolveram em um engavetamento – Foto: reprodução

Receber uma corrida não é uma coisa barata e com problemas no orçamento, a corrida de 1951 foi cancelada. Em 1952, a F1 passava por dificuldades e sem equipes fortes para disputar o campeonato, optou por correr com as regras da F2. A ACM não queria receber a corrida nessas condições e optou por realizar uma corrida com carros esportivos. A prova foi marcada por uma tragédia, quando Luigi Fagioli bateu forte durante a classificação e faleceu 18 dias depois.

Carro destruído de Luigi Fagioli, que faleceu algumas semanas depois do acidente – Foto: reprodução

A corrida não foi um sucesso de público e a aposentadoria de Antony Nogués piorou a situação. Com a F1 ainda usando as regras da F2, a corrida de 1953 também foi cancelada e depois que a F1 voltou ao normal, ainda assim Mônaco não estava convencida de que receber a corrida seria uma boa ideia e a prova de 1954 também não aconteceu.

O GP de Mônaco voltou a ser disputado em 1955, como parte do campeonato da F1, com a linha de largada/chegada sendo mudada para a parte próxima à água, bem perto da Gazomètre.

Traçado usado em 1955, com a alteração no posicionamento da linha de largada/chegada – Foto: reprodução

 

Durante a corrida, Alberto Ascari perdeu o controle do carro na chicane do porto e caiu no mar. Como os organizadores já previam que isso podia acontecer, deixaram mergulhadores de prontidão, mas Ascari voltou para a superfície por conta própria e foi resgatado por um barco, sofrendo apenas uma fratura no nariz.

Alberto Ascari perdeu o controle do carro e caiu no mar. O piloto foi resgatado apenas com uma fratura no nariz – Foto: reprodução

Alberto Ascari e Paul Hawkins, em 1965, foram os únicos pilotos a caírem no mar em todas as provas disputadas no principado.

Paul Hawkins também se aventurou no mar depois de perder o controle do carro, na corrida de 1965. Hawkins não se feriu e foi resgatado por um barco – Foto: reprodução

Essa corrida também contou com o piloto mais velho a disputar uma corrida de F1. Louis Chiron tinha 55 anos, 292 dias quando chegou em 6º em sua corrida em casa.

O traçado do circuito sofreu algumas alterações durante os anos. Em 1963, a linha de largada/chegada foi mudada para antes da St. Dévote. Visando a segurança, barreiras foram instaladas em alguns pontos do traçado em 1969, com cada vez mais partes recebendo as proteções nos anos seguintes, principalmente depois do acidente de Lorenzo Bandini, que bateu nas proteções de feno da Chicane du Port e seu carro pegou fogo durante o GP de 1967. O piloto faleceu três dias depois, devido às queimaduras sofridas.

O carro de Bandini pega fogo depois de acertar as proteções de feno usadas na época. O circuito passou a instalar barreiras no traçado, para evitar mais acidentes graves – Foto: reprodução

Com as barreiras, o circuito acabou ficando mais estreito. Mesmo assim, os pilotos pediram mais alterações, visando a segurança. Em 1972, foi pedido que a área dos boxes fosse separada da pista por uma barreira. Com a criação do S de La Piscine em 1973, se aproveitando de um aterro construído no local, não só os boxes tiveram mais espaço, mas também permitiu que o circuito tivesse uma faixa de pit lane permanente pela primeira vez na história. A curva Gasomètre também foi alterada, virando La Rascasse e Antony Noghès e uma chicane foi colocada antes da Tabac. A antiga estação e o túnel também foram demolidos e no lugar foi construído um complexo de hotel, ainda que mantendo um túnel na parte de baixo.

Traçado usado em 1973, com algumas alterações mais significativas, como a construção do S de La Piscine e da Rascasse/ Antony Noghès no lugar da Gasomètre – Foto: reprodução.
Antigo túnel em Mônaco, que foi demolido para a construção de um hotel – Foto: reprodução
Entrada do novo túnel, que foi construído embaixo de um hotel – Foto: reprodução

Em 1976 veio uma nova alteração, desta vez na Rascasse e na St. Dévote, que visava diminuir a velocidade dos carros. Dez anos mais tarde, a Chicane du Port foi modificada e batizada de Nouvelle Chicane, criando uma pequena área de escape no circuito. O piloto Louis Chiron ganhou uma homenagem em 1997, com a entrada do S da piscina sendo redesenhado e rebatizado como “Virage Louis Chiron”. A parte da saída desse trecho foi modificada e realinhada em 2003.

Traçado usado atualmente em Mônaco, com alguns realinhamentos feitos durante os anos e a criação da Nouvelle Chicane, em 1986. – Foto: reprodução

A última modificação veio em 2015, quando a Tabac foi movida para perto do cais e toda a parte até a piscina foi realinhada, mudando a entrada desse trecho. Tudo isso para evitar o que aconteceu em 2013, quando Pastor Maldonado bateu ao disputar a posição com Max Chilton e deslocou uma barreira, paralisando a corrida.

Jogado contra as barreiras, o carro de Pastor Maldonado bateu forte contra as proteções, que se deslocaram e invadiram a pista. Essa parte do circuito foi realinhada para evitar que isso aconteça novamente. – Foto: reprodução

Todo ano são montados 33 km de guard-rail, 3600 pneus para as barreiras e 20 mil metros quadrados de alambrado para delimitar o traçado, que leva seis semanas para ser montado e mais três para ser desmontado. Como se trata de um circuito de rua, os treinos livres acontecem na quinta-feira ao invés da sexta, como nas demais etapas. Isso porque na maioria das vezes, a corrida coincide com o feriado do Dia da Ascensão, que sempre é celebrado na quinta-feira, sendo assim, as ruas ficam liberadas para os residentes em um dia útil. E por ter a pista mais curta do calendário, Mônaco não precisa cumprir a quilometragem mínima exigida para cada prova. Mesmo tendo 78 voltas, a distância total percorrida pelos pilotos é de 260 km percorridos, contra o mínimo de 305 km exigidos em outros circuitos.

As ruas estreitas de Mônaco já renderam boas corridas. Ayrton Senna quase venceu sua primeira prova no principado, em 1984. Disputava sob forte chuva, Senna largou em 13º e escalou o grid com a modesta equipe Toleman, até chegar na vice-liderança da prova. Prost, que estava na frente, pediu para que a corrida fosse interrompida e teve seu pedido atendido na volta 32. Senna acabou ficando com o 2º lugar, com Prost conquistando a primeira de suas quatro vitórias na pista monegasca.

Senna e Prost no pódio do GP de Mônaco de 1984. A corrida foi interrompida na metade devido à chuva, quando Senna se aproximava de Prost na briga pela liderança da corrida. -Foto: reprodução

Não que o brasileiro não tivesse a chance de vencer no glamoroso circuito. Depois de conquistar sua primeira vitória nesta pista, em 1987, que ainda contou com uma dobradinha brasileira, com Nelson Piquet em 2º, Senna poderia ter vencido a corrida do ano seguinte, quando estava liderando a prova com 55 segundos de vantagem para Prost e bateu no guard-rail, abandonando a corrida. Depois desse erro, Senna venceu as cinco corridas seguintes em Mônaco, entre 1989 e 1993, conquistando seis triunfos no total e desbancando o recorde de mais vitórias no principado que pertencia ao Mister Monaco Graham Hill, que tinha cinco vitórias nesse circuito e é o único piloto a conquistar a Tríplice Coroa.

Antes de Senna bater seu recorde, Graham Hill dominou as ruas do principado, conquistando cinco vitórias, o que lhe rendeu o apelido de Mister Mônaco Mais tarde, Hill foi igualado por Michael Schumacher em número de vitórias. – Foto: reprodução

Ayrton Senna e Ron Dennis no pódio da corrida de 1993, a última das seis vitórias do brasileiro no circuito, que contou até com um Grand Chelem em 1990. – Foto: reprodução

Se perguntarmos para Olivier Panis qual é sua corrida favorita, a resposta seria o GP de Mônaco em 1996. O piloto francês se classificou em 14º para a corrida, mas ainda sonhava com um pódio, mesmo nas estreitas ruas do circuito, que não permitem muitas ultrapassagens. Debaixo de chuva, muitos pilotos nem completaram a primeira volta e depois de algumas ultrapassagens, Panis já tinha subido para a  8ª posição. Aproveitando para fazer uma parada mais cedo, quando a pista já estava secando, Panis passou a ser o 4º. Depois de fazer uma ultrapassagem em Irvine, o francês viu seus dois adversários, Damon Hill e Jean Alesi abandonando a prova. Com isso, o piloto da Ligier assumiu a liderança. Com a corrida perto de chegar às duas horas limite, Panis viu o combustível de seu carro acabar. Ao invés de ir para os boxes, decidiu se manter na pista, diminuindo o ritmo para conseguir cruzar a linha de chegada e conquistar sua única vitória na F1.

Com a equipe Ligier, Olivier Panis comemora sua primeira e única vitória na F1, no GP de Mônaco de 1996. – Foto: reprodução

Essa corrida igualou um feito histórico, que também tinha acontecido em Mônaco, dessa vez em 1966: o de menor número de pilotos a terminar a prova, com apenas quatro competidores chegando ao final da corrida.

Entre os pilotos da casa, quatro monegascos já se aventuraram na F1. Louis Chiron, que além ajudar no projeto do circuito, ainda venceu a corrida não-oficial de 1931, André Testut, que não se classificou para as corridas de 1958 e 1959, Olivier Beretta, que terminou em 8º na prova de 1994 e Charles Leclerc, que não conseguiu completar a corrida nas quatro edições em que participou até o momento, sendo duas na F2 e duas na F1.

 

Mônaco já recebeu 24 pilotos brasileiros em sua pista. Emerson Fittipaldi foi o primeiro a estrear, chegando em 5º na corrida de 1971.

Emerson Fittipaldi foi o primeiro piloto brasileiro a pilotar um F1 nas ruas do principado, em 1971. -Foto: reprodução.

Desse grupo, apenas Senna venceu na pista monegasca, mas quando se trata de número de pódios, a lista aumenta e além de Senna com 8, inclui também Rubens Barrichello (5), Emerson Fittipaldi (3), Nelson Piquet (3), Felipe Massa (2) e Carlos Pace (1). E Senna logo pode ter companhia no topo da tabela de pódios. Lewis Hamilton tem sete pódios no circuito e terá a chance de igualar o brasileiro na corrida que acontece em maio de 2021, já que a corrida de 2020 não aconteceu, devido à pandemia de Covid-19, interrompendo um ciclo de 64 anos de corridas ininterruptas.

Além das corridas de F1, Mônaco também aproveita a estrutura montada para realizar uma corrida de carros históricos, que é dividida em várias etapas, dependendo do ano em que o carro competiu.

Pilotos disputam corrida do Monaco Grand Prix Historique, trazendo carros de diversas épocas da F1. – Foto: reprodução

E não só de F1 vive o circuito. Em 2015, a Fórmula E desembarcou no principado, utilizando um traçado mais curto, que ia até a Nouvelle Chicane.

O traçado que a Fórmula E utilizou nas primeiras corridas ia até a Nouvelle Chicane. Já para a corrida de 2021, o traçado foi o mesmo usado pela F1, com apenas algumas alterações em duas curvas. – Foto: reprodução

A corrida é disputada a cada dois anos e em 2021, com os carros Gen2 tendo mais autonomia, ao invés da pista de 1,76 km foi utilizada a pista completa, com pequenas alterações em duas curvas. As quatro edições até o momento tiveram brasileiros no pódio em três delas. Lucas di Grassi e Nelson Piquet Jr. conquistaram o 2º e 3º lugar na corrida de estreia. Na corrida seguinte, Di Grassi levou o 2º lugar, com Felipe Massa terminando em 3º a prova de 2019.

Pilotos disputam o primeiro ePrix de Mônaco da Formula E, categoria elétrica que disputa uma etapa em Mônaco a cada dois anos. – Foto: reprodução
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Jarama

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East London

Coreia

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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