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O que são os testes de pré-temporada da Fórmula E e por que eles são tão importantes?

Durante a preparação em Valência, ser o mais rápido não necessariamente significa ser o melhor

Os testes de pré-temporada da Fórmula E estão acontecendo desde o último sábado (28) em Valência. Embora as notícias sejam majoritariamente sobre os tempos de volta, esse é um dos fatores que menos representam a realidade dos carros.

No ano passado, o Boletim do Paddock gravou um podcast sobre o assunto em que falamos da importância do software desenvolvido pelas equipes. Nós apresentamos também um vídeo em que Allan McNish, Team Principal da Audi revelou que eles chegam a atualizar o software até duas vezes ao dia.

“O carro é o reflexo da equipe e a equipe é o reflexo do carro”, afirmou ele. É processo cíclico.

Para 2020/21 existe um ingrediente que pode fazer muita diferença para as equipes: o trem de força. A Fórmula E permitiu que as equipes escolhessem entre utilizar o mesmo powertrain do ano passado ou apresentar o modelo que seria obrigatório para este ano.

Das 12 equipes, apenas três optaram pelo equipamento da última temporada, Techeetah, Nissan e Dragon. Todas as outras investiram em novos powertrains para buscar o título de primeira campeã mundial da categoria.

A REFERÊNCIA DO MUNDO REAL

Mark Preston, Team Principal da Techeetah, explicou ao site oficial da Fórmula E neste domingo (29) que “Você pode fazer todas as simulações e cálculos do mundo, mas nada supera realmente ir a uma pista de corrida real para validar tudo.” As equipes passam horas no simulador ajustando uma série de configurações, mas é preciso vivenciar a realidade.

“Quando você testa coisas em plataformas ou dynos ou em simuladores, você nem sempre encontra as diferenças que podem acontecer na pista”, diz o diretor da equipe da DS TECHEETAH.

“Ir para a pista pode validar conceitos e ideias que você desenvolveu. Temos três dias e uma quantidade razoável de tempo. Esses carros são realmente confiáveis e os powertrains duram um ano, por isso não é como os velhos tempos da Fórmula 1 quando havia muitas quebras.

“Os engenheiros têm o escopo de executar uma coisa em um carro, e um para o outro. Então, se algo funciona muito bem, pode validar algo que abre outros caminhos”, afirma Preston.

Mark Preston, chefe de equipe da DS Techeetah (Foto: Sam Bloxham / LAT Images)

A CAIXA DE FERRAMENTAS

De acordo com Mark Preston, outro benefício de testes assim é abrir espaço para tentar usar coisas que podem ser muito caras para serem avaliadas durante os fins de semana de corrida, já que o tempo é bem limitado.

O Diretor da Techeetah diz que a ideia é montar um arsenal para os engenheiros e ter várias ferramentas na “caixa de ferramentas” onde eles vão buscar soluções para eventuais problemas que apareçam no meio do caminho.

“Ter as ‘ferramentas em sua caixa de ferramentas’ – as configurações na mão para todas as situações – se estiver chovendo, por exemplo – é o objetivo. Uma das chaves da engenharia é explorar essas hipóteses e saber o que temos que testar para fazê-las funcionar em um fim de semana de corrida em uma das pistas do calendário da Fórmula E”.

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O desafio é ainda maior se considerarmos que a pré-temporada acontece em um tipo de circuito diferente do que é utilizado nas corridas oficiais da categoria 

“Ambos os pilotos têm uma lista de coisas pelas quais têm que trabalhar, mas há espaço para tentar novas hipóteses”, continua o australiano. “Podemos testá-las aqui, e justificar isso dizendo ‘achamos que vai funcionar em um circuito de rua porque…’ embora entendemos que os testes aqui não se traduzem diretamente em um circuito de rua.

“A pista em Valência é mais um circuito tradicional de corridas, então talvez não seja completamente representativa, mas você pode se comparar contra outras equipes. Não é nada definitivo, e não lhe dirá com certeza se você é mais rápido, mas pode mostrar se uma mudança que você fez te tornou mais rápido em relação aos outros e à sua própria referência”, concluiu o diretor.

SOB O OLHAR DO PILOTO

Jake Dennis da BMW I Andretti Motorsport – Foto: BMW Motorsport

Os testes tem um propósito: “O objetivo é, obviamente, aprender o máximo possível”, diz Maximilian Guenther, da BMW i Andretti Motorsport. “Todo mundo tem seu próprio programa de desenvolvimento de software e configuração que quer experimentar.

“É muito estruturado para todas as equipes, com planos de corrida para cada um dos três dias. Se você não tem problemas, siga-o estritamente. Em um dia como o sábado (com a chuva e, posteriormente, secando a superfície da pista), você reage um pouco e muda as coisas com a superfície da pista mudando ao longo do dia. Eu sei quais são nossos planos para cada dia antes de começarmos.

“Estamos tentando as coisas em todas as direções. Há coisas menores para sintonizar e otimizar, mas há coisas maiores que eu nunca experimentaria em um fim de semana de corrida que podemos tentar aqui”, afirma o alemão.

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Max Guenther reforça a opinião de Mark Preston sobre ser o mais rápido. “Há algumas pessoas que olham para as tabelas de tempos e querem estar no topo dos tempos, mas para nós, é importante aprender – não é só neste fim de semana. “Você olha para os tempos no final do dia, mas não é a coisa mais importante.

“A pista é diferente dos circuitos habituais em que corremos, mas ainda é uma oportunidade útil com três dias de testes para continuar afinando o carro do lado da equipe e do lado do piloto para explorar coisas diferentes com simulações de qualificação e corrida, também.

“Eu e a equipe queremos nos concentrar em extrair o máximo possível. Focamos em nós mesmos e nessa filosofia, acumulando o máximo de pontos possível por fim de semana e para continuar aprendendo e melhorando. Fiz assim nos tempos de F4 e F3 e é isso que eu estou aqui para fazer”, afirma o piloto da BMW.

PENSAMENTO POSITIVO

O alemão tem agora um novo companheiro de equipe, o britânico Jake Dennis. “Somos uma equipe e para Jake (Dennis) e eu, o mais importante é que o carro é o mais rápido possível. 

“Você se concentra em vencer todos de lá, assim como seu companheiro de equipe, mas até lá você trabalha em equipe juntos para compartilhar ideias, compartilhar tudo para tornar o carro o mais competitivo possível”.

Então, todo o trabalho da BMW está se pagando?

Guenther diz que “O carro e o powertrain estão muito bons e acho que fizemos um bom trabalho durante a off-season. “Vamos ver com certeza o quão bom em algumas semanas em janeiro, mas os caras da fábrica fizeram um trabalho muito bom.

“Muito desenvolvimento e ainda estamos melhorando e entendendo o novo carro. Até aqui, tudo bem. Como piloto, você tem uma sensação de melhora com certeza, mas os dados dizem tudo o que você precisa saber.”

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Cinthia Venâncio

Cearense que acompanha Fórmula 1 desde que se entende por gente. Faz aniversário no mesmo dia do Damon Hill.

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