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Mil Vezes Tifoso

Mille Gran Premi di Formula 1

“Chiedete ad un bambino di disegnare una macchina, sicuramente la farà rossa”, Enzo Ferrari.

A frase famosa do Commendatore, que podemos traduzir como “Peça a uma criança para desenhar um carro, ela certamente o fará vermelho” representa o sentimento de todo torcedor da Scuderia Ferrari pelo mundo. Vermelho é o coração, o sangue, a paixão. Vermelho fica o rosto apaixonado quando comemora uma vitória ferrarista, com os olhos congestionados, a boca aberta num grito de euforia como se sofresse com febre alta, dor… Exatamente a aparência dos que eram afetados pelo tifo, doença bacteriana que hoje em dia é mais rara e tem tratamento conhecido. Do seu nome, e dessa similaridade, surgiu o termo italiano tifoso – no plural, tifosi – para designar essa paixão pela equipe baseada em Maranello.

Este que vos escreve é um tifoso apaixonado. Este artigo não vai ser imparcial, nem jornalístico. Ele vai servir para congregar os torcedores e tentar explicar aos que não compartilham a agonia e o êxtase de ser ferrarista o significa para nós chegarmos a 1.000 Grandes Prêmios na Fórmula 1.

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Agonia e êxtase, sim. O título do livro de 1961, depois transformado em filme, que conta um tanto da história de Michelangelo e da pintura da Capela Sistina, tem eco nas várias fases do time ao longo destes mais de 90 anos de vida, um tempo maior do que a própria Fórmula 1 em si.

Comecemos pela agonia – que tem origem clássica e, em grego antigo, significa “conflito”, “contestação”, assumindo um sentido de forças opostas ou caminhos separados. Quando o trajeto da F1 e o da Ferrari parecem divergir, como os de Dom e Brian (hehehe, desculpem, não resisti), por maior e mais irracional que seja a alegria de quem diz não gostar da Scuderia (o tipo de Schadenfreude que me soa mais triste e patético), o tifoso se enche de orgulho por permanecer com a cabeça erguida, pois sabe que já passou por isso e que o nome Ferrari é capaz de superar qualquer adversidade.

Enzo Ferrari perdeu o pai e o irmão mais velhos na primeira guerra, mas teve a resiliência de se tornar um piloto de corridas de relativo sucesso. Em 1929 fundou o protótipo do que seria sua Scuderia, sendo responsável pelos Alfa Romeo de competição. Como uma forma de lembrar o período de conflito e honrar um pedido dos pais do aviador Francesco Baracca, que lhe haviam dito que se usasse o emblema do filho sempre teria sorte nas corridas, adotou o cavallino rampante sobre um campo amarelo, a cor da casa de Modena, como símbolo da sua companhia. A separação entre Ferrari e Alfa se deu alguns anos mais, e logo depois a fábrica foi levada para a cidadezinha de Maranello, numa tentativa de fugir dos bombardeios constantes durante a Segunda Guerra. Tentativa frustrada, pois a estrutura foi destruída em um ataque aliado.

Mas o cavalo negro simbolizava a ousadia, e em 1946 carros já eram produzidos no mesmo local e começavam a ganhar corridas. “Eu nunca fiz nada disso para que outras pessoas pudessem desfrutar, eu quis satisfazer meu próprio ego”, disse Enzo. Uma das pessoas que sentiu isso na própria pele foi Henry Ford, que recebeu um sonoro não ao tentar comprar a Scuderia. Com o orgulho ferido, empenhou tempo e dinheiro para bater as Ferrari em Le Mans, o que acabou conseguindo depois. Mas então por que hoje não temos mais a Ford como competidora, enquanto a Ferrari continua mantendo sua enorme torcida, que aumenta a cada ano? Faltava a paixão.

Já é a terceira vez que escrevo essa palavra no texto. Fui buscar outras palavras semelhantes no dicionário e encontrei “martírio”, “tormento”, “suplício”. Sim, já passamos por isso. Nos anos 60, com a Lotus e a Brabham, nos 80 e 90 com Williams e McLaren, e nos anos 10 com Red Bull e Mercedes. Mas a paixão dos tifosi não diminuiu, assim como não diminuiu a procura pelos carros de passeio fabricados pela companhia. A Ferrari foi uma das montadoras que menos sofreu os efeitos econômicos da atual pandemia, mantendo todos seus 3.500 funcionários sob contrato. Isso prova a transcendência da marca, que não precisa mais dos resultados de pista pois tornou-se sinônimo de competição, beleza, tecnologia e arte. E isso sem ter gastado um único euro, ou lira, em propaganda em toda a sua história. Você nunca viu um anúncio da Ferrari, viu?

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O Comendador nunca se importou com isso. Logo após a Segunda Guerra, quando todos buscavam formas de fazer carros mais baratos para uma população que não tinha recursos sobrando, Enzo primava pela qualidade e pelo desempenho. Dizia “Eu faço carros caros e rápidos, que custam muito dinheiro, porque só eles podem fazer o que eu quero: correr”. Tanto é que, ainda em 1969, a Ferrari vendeu parte de sua estrutura de carros de passeio para o grupo FIAT, para liberar recursos e tempo para o automobilismo competitivo. Nessa época ele já tinha 71 anos e havia transformado uma fábrica de veículos no interior da Itália numa organização admirada e invejada em partes iguais no mundo inteiro. A Ferrari tornou-se o Michelangelo da nossa era, e em Maranello são produzidas 10.400 capelas Sistinas ao ano.

E, desde que Alberto Ascari venceu o campeonato de 52, por 16 vezes o mundial de construtores veio para a cidade na Toscana. Enzo transformou seu sobrenome em uma dinastia, enfatizando a cada dia de sua vida que dirigir uma Ferrari era uma honra. E, para ser digno dessa honra, o piloto precisa mostrar que merece. Desde o início era prática da Scuderia contratar mais pilotos do que tinha assentos disponíveis. Eles sabiam que, se dessem um pouco menos do que o máximo de si teriam alguém dentro dos boxes esperando para ocupar aquele lugar atrás do volante. Se você é o segundo piloto da Ferrari, você precisa trabalhar para a equipe. E, se você é o primeiro, também. E assim os resultados sempre voltam.

Como voltaram em meados da década de 70: nos anos anteriores, a fase era negativa, e o carro começou a apresentar seguidamente problemas no que tinha que ser o seu ponto forte: o motor. “Aerodinâmica é para quem não consegue construir motores rápidos” é outro aforisma do fundador do time, um apaixonado pelos propulsores de 12 cilindros. Então, quando as Ferraris começaram a abandonar as provas, Enzo chamou todos à pista de Fiorano, vizinha à sede da empresa, e passou o dia nos boxes olhando Clay Regazzoni e Jacky Ickx até que um dos carros não suportou ao esforço do que seria quase uma prova de Endurance. Muitos quilômetros a mais do que uma corrida de Fórmula 1, mas o chefe disse apenas: descubram o que houve, faremos novamente amanhã. Quando, na prova seguinte, justamente em Monza, os carros outra vez não viram a bandeira quadriculada, Enzo Ferrari demitiu Mauro Forghieri, seu amigo pessoal. Ele retornaria logo depois e, em 1975 o título voltou para casa nas mãos de Niki Lauda.

Décadas depois, seu filho Piero (ainda VP da companhia) ajudou a levar a rossa a outro período áureo após um jejum prolongado, de quase 20 anos. “Meu pai nunca esteve feliz com as glórias das vitórias do passado. Ele as considerava história, e estava sempre pensando em como vencer a próxima corrida”, ele conta.

Por isso, quando os carros vermelhos do cavalinho empinado alinharem no grid para sua milésima corrida, no próximo domingo, uma multidão de tifosi vai estar acompanhando e torcendo. Não importa muito que não tenhamos nem de perto o melhor carro no momento: uma de cada cinco corridas na Fórmula 1 foi vencida por uma Ferrari, e ninguém é capaz de tirar nossa história. E o fato da prova ser, pela primeira vez, disputada no autódromo de Mugello (pista da Ferrari vizinha à Florença, berço da Renascença, quando as obras primas da Itália definiram o mundo moderno), nenhum torcedor vai deixar de pensar que pode não ser coincidência chegarmos a essa marca histórica justo ali. Afinal, em 1988, dias após a morte de Enzo Ferrari e correndo em Monza contra um carro alienígena da McLaren que tinha vencido todas as corridas naquele ano (e venceria as próximas), o impensável aconteceu e a pista foi invadida por apaixonados comemorando uma dobradinha da equipe. Com os rostos vermelhos como se em febre, os olhos congestionados por um choro de alegria e as bocas mal segurando os corações dentro do peito enquanto entoam o Fratelli D’Italia tomados pelo mais puro êxtase.

#essereFerrari

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Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.

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