ColunistaCrônicasFórmula 1

Crônicas de Melbourne

Após um longo e tenebroso inverno, incrementado com aposentadorias repentinas, a volta dos que nunca foram e 8 dias de pré-temporada, que serviram para aumentar ainda mais nossas expectativas, temperadas com uma dose de ufanismo, a Fórmula 1 finalmente voltou. Bem como o regulamento, ao que tudo indica o equilíbrio de forças do grid também sofreu mudanças importantes, alimentando ainda mais as chances de uma temporada recheada de batalhas, intrigas e polêmicas.

Embora a espera pela temporada de 2017 tenha parecido absurdamente longa, basta lembrar dos jejuns da Ferrari para mudar de ideia. Com a vitória em Melbourne, Vettel encerrou uma seca de 521 dias sem uma vitória da escuderia na categoria, a ultima também havia sido assinada pelo tetracampeão, no GP de Cingapura 2015. Não só isso, mas pela primeira vez em 1625 dias temos um piloto trajando o famoso macacão vermelho como líder do campeonato de pilotos. Temos que voltar cinco anos no tempo para chegar à marca anterior, mais precisamente após GP do Japão de 2012, com Fernando Alonso se segurando na liderança enquanto Vettel crescia nos seus retrovisores.

Fonte: @maxf1.net

Os donos mudaram, o regulamento mudou e com isso o pelotão também foi bagunçado. A soberania das flechas de prata está mais ameaçada do que nunca, entretanto, não são os austríacos da Red Bull, os antigos donos do trono, que tentam derrubar a Mercedes. Max e Ricciardo tiveram fins de semana completamente diferentes, enquanto o australiano infelizmente frustrava seus compatriotas com uma sequência de infortúnios, Verstappen começou a temporada de forma consistente, porém apagada. Evidentemente, um 5º lugar não pode ser considerado um fracasso, mas considerando o desempenho do RB12 em 2016, a diferença entre as duas primeiras forças e a Red Bull é um regresso inesperado e sem dúvidas mais problemas nas mãos de Newey, Horner e companhia. Já nos boxes italianos ao lado, 2017 não poderia ter começado melhor. O histórico da temporada anterior e a mudança geral na equipe interna descreditavam a Ferrari como uma possível força nesse ano. Calando críticas, os italianos operaram um verdadeiro milagre, mostraram seu poder na Catalunya e Vettel dominou a prova com autoridade em Melbourne. Mesmo contando com uma assistência de Max Verstappen, o tetracampeão foi oportunista e não deu chances para Hamilton reassumir a liderança. Aliás, largar em 2º parece ser o segredo para vencer na Austrália, já que Rosberg e Vettel triunfaram largando no lado sujo da pista nos dois últimos anos.

Fonte: F1 Fanatic

No pelotão intermediário, a Force India começou 2017 de forma discreta, mesmo com seu carro cor de rosa, e eficiente. Perez e Ocon marcaram pontos valiosos, especialmente visando a briga intensa que deve movimentar o campeonato de construtores entre a 4ª e a 8ª posição. A Toro Rosso também capitalizou em solo australiano, com uma corrida consistente e um carro muito equilibrado, os italianos só não superaram a Force India devido a um problema no monoposto de Daniil Kvyat. O russo foi obrigado a parar pela segunda vez mas ainda sim terminou a prova em 9º, provando que a performance do STR12 supera expectativas e pode perturbar muita gente. Já para os americanos da Haas, o surpreendente 6º lugar de Romain Grosejean no Qualifying serviu como uma boa dose de otimismo para o domingo, contudo, a equipe saiu zerada de Melbourne graças a um problema no bólido do francês e a barbeiragem de Kevin Magnussen, colhendo Marcus Ericsson na 4ª curva do ano. A 11ª posição de Hulkenberg prova que a Renault também está no caminho certo, considerando os 8 pontos marcados em 2016, bater na trave de tirar o zero do placar já na primeira corrida pode ser considerado uma vitória.

Fonte: Scuderia Toro Rosso

Faça chuva ou faça sol, certas coisas nunca mudam, e o 6º lugar de Felipe Massa é uma prova viva disso. Brincadeiras à parte, o brasileiro provou que por um lado o carro da Williams é realmente muito eficiente, já que não foi ameaçado durante a prova. Entretanto, a corrida também nos mostrou que a diferença entre as três primeiras equipes e o resto do pelotão é gritante, uma vez que Massa foi o último piloto a terminar a prova na volta do líder, 83 segundos atrás de Sebastian Vettel. Ainda falando sobre cenários idênticos, os calvários de McLaren e Sauber parecem intermináveis. Os ingleses até flertaram com uma pontuação miraculosa na primeira corrida do ano, mas o monoposto não resistiu até o fim da prova e Fernando Alonso foi forçado a abandonar melancolicamente. O casamento com a Honda já deve estar chegando ao fim, mas o processo de divórcio será longo e doloroso, bem como a temporada de 2017 para a equipe de Woking. Já para os suíços da Sauber, o resultado abaixo da média já era mais do que esperado. O motor Ferrari ultrapassado e os braços no cockpit não soam como uma combinação vitoriosa, mas o 12º do estreante Giovinazzi serviu como alento para equipe, que pelo menos pode contar com a confiabilidade de seu bólido.

Assim como qualquer mudança radical de regulamento, as primeiras corridas de 2017 servirão como fase de adaptação e transição para uma nova realidade, contudo, as batalhas por vitórias, pontos, títulos e até mesmo soberania no pelotão intermediário certamente serão emocionante e dignas de uma temporada histórica. Que venha Shanghai!

Mostrar mais

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.

Deixe uma resposta

Artigos relacionados