365 dias

A história do Urso que venceu o seu chefe

| Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 18 de Junho, a história do Urso que venceu o seu chefe – 01ª Temporada: dia 28 de 365 dias.

Denis Clive “Denny” Hulme não era exatamente um diabo, mas nasceu na Tasmânia, na cidade de Motueka num 18 de junho de 1936. Fonte: @tumblr

Um cara grande, mal encarado e fechado, que receberia posteriormente o apelido de “O Urso”, mas não podia ser diferente. Denny poderia ter sido praticamente um Crocodilo Dundee. Nasceu em uma fazenda de tabaco de propriedade de seu pai, um herói que lutou na Batalha de Creta durante a WWII, matando 33 snipers alemães na ocasião. Aprendeu a dirigir em um caminhão, sentado no colo do velho, e aos 6 anos de idade já dirigia sozinho. Obviamente que logo largou a escola e foi trabalhar em uma oficina, economizando o suficiente para comprar seu primeiro carro, um modelo TF da Morris Garage, com o qual começou a disputar corridas. Hulme participava de provas de rampa, preparava o próprio carro e corria descalço, pois dizia que sentia melhor os pedais desta forma.

Bom de braço, foi para a Europa para competir na Fórmula 2 em um Cooper Ford. Já em 1961 conseguiu um assento para participar das míticas 24h de Le Mans, correndo pela Abarth na classe S850. Terminou a corrida com a 14ª classificação no geral, e o segundo lugar em sua categoria. Ken Tyrrell gostou do que viu e convidou o Kiwi para participar de algumas provas na sua equipe da Fórmula Junior e na Fórmula 2 em 1962. E ainda arrumou para Denis um emprego de mecânico com um chapa seu, um tal de Jack Brabham.

Fonte: @Instagram

Mesmo com a rivalidade entre australianos e neozelandeses, Brabham e Hulme tornaram-se amigos, e naturalmente o patrão acabou arrumando um lugar em sua equipe para o mecânico fechadão mas bom de braço. Na temporada de 1963 Denny ganhou sete corridas na F-Junior e conseguiu ser chamado para pilotar na equipe Brabham na F2. Em 64 começou a aparecer na F1, pilotando em algumas provas que não contavam pontos para o campeonato, até que em 1965 finalmente estreou na categoria principal, correndo em Mônaco. Logo estaria marcando seus primeiros pontos, com um quarto lugar no GP da França daquele ano.

Sua primeira temporada completa foi em 1966. Denny era o segundo piloto da equipe, uma vez que seu companheiro era o dono dela. Jack ganhou o título daquele ano, e o quarto lugar geral de Hulme ajudou a Brabham a ser campeã de construtores.

Duvido que fosse um suco natural. Fonte: @Colorado

Em 1967, a Brabham ainda era o time a ser batido, mas não tinha mais toda a vantagem do mundo, pois o novo Lotus 49 de Jim Clark e Graham Hill era talvez até mais rápido, porém não tão resistente quanto seus rivais (e estou falando não só da resistência do carro, mas de Jack Brabham e principalmente de The BearHulme). Denis venceu sua primeira prova em Mônaco (estava sendo perseguido por Lorenzo Bandini quando este perdeu o controle de sua Ferrari e bateu, fazendo o carro pegar fogo e perdendo não só a corrida mas também a vida), chegando em primeiro também no inferno verde de Nürburgring e provando sua versatilidade em qualquer tipo de pista. As duas vitórias, somadas a mais 3 segundos e 3 terceiros lugares deram a Hulme o título de campeão mundial de Fórmula 1 em 1967, com 51 pontos, cinco a mais que seu chefe Jack Brabham e dez à frente de Jim Clark. Até hoje, Denny Hulme é o único neozelandês a ser campeão.

Fonte: @McLarenF1

Ganhar do dono da equipe não é exatamente visão de carreira, mas Hulme tinha um compatriota no circuito e em 1968 mudou-se para o time de Bruce McLaren. Defendendo o título, venceu os GPs da Itália e do Canadá, mas quatro abandonos em 12 corridas foram determinantes para que conseguisse terminar apenas em terceiro lugar no campeonato, atrás de Graham Hill e do novato Jackie Stewart. Ao todo, Hulme ficou sete anos na McLaren, vencendo 6 corridas e conseguindo outro terceiro lugar geral em 1972. Sua despedida foi no campeonato de 1974, ano em que venceria pela última vez na prova inaugural, na Argentina, e veria seu companheiro de equipe Emerson Fittipaldi sagrar-se campeão mundial.

Última vitória de Denny Hulme veio na Argentina em 1974 — Foto: Reprodução

Com 38 anos, Denis voltou à terra natal, onde participava eventualmente de provas de turismo até 1982, quando resolveu voltar a competir regularmente, primeiro em casa e na Austrália e, em 1986, de volta à Europa com bons resultados.

Seu evento favorito acontecia anualmente em Mount Panorama, na Autrália. Em 1992 Denny Hulme estava animado para correr a Bathurst 1000 pela Benson & Hedges Racing, a bordo de um BMW M3. Na volta 33, debaixo de uma chuva torrencial, The Bear reclamou com a equipe pelo rádio, dizendo que estava vendo tudo embaçado. Logo após, em plena reta, seu carro acertou o muro à esquerda da pista a 230 km/h, cruzando-a e parando do outro lado. Quando os fiscais chegaram para ajudá-lo a sair do carro, o encontraram desacordado, porém não foi a colisão a culpada, e sim um ataque cardíaco fulminante sofrido enquanto pilotava. Denis Hulme foi levado ao hospital, mas chegou lá sem vida. O sétimo campeão da história da Fórmula 1 foi o primeiro a morrer de causas naturais. Mas foi embora atrás do volante.

Bathurst 1992. O momento em que o coração do Urso parou de bater está gravado a partir dos 5:00.

lll FORA DAS PISTAS

Também fazem anos hoje a bela Isabella Rossellini (vejam A Morte lhe Cai Bem) e o cowboy Blake Shelton. Só porque o country é um filho do blues que mudou para o interior, e porque essa música é divertidíssima, deixo vocês por aqui e vou preparar uma (ou treze) doses.

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

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Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.

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